quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ficção Científica

Era a grande notícia do dia no país. 

Estavam todos em polvorosa com a contratação. Ele vinha de fora, após anos vivendo na Europa. Baita reforço para o Brasil. Com certeza, viria para somar muito e trazer muitas alegrias a todos. Ele era o cara para fazer todo mundo sonhar acordado.

As condições que fizeram com que retornasse não estavam muito claras. Sabia-se que seu salário seria altíssimo, na casa dos milhões ao mês. Certamente, um investimento que valia à pena. Era uma grande tacada de marketing, no fim das contas. As crianças se espelhariam no ídolo. Imitariam o ídolo. Um exemplo para a nação. Uma nação que teria, finalmente, motivos para se orgulhar.

Vitória. Essa era a palavra mais difundida nos jornais e mídias brasileiros naquele dia. Era tudo uma grande novidade. Há tempos não se via um repatriamento de tanto impacto. Será que finalmente o país deixaria para trás o "espírito de vira-latas" que tanto lhe acometia? O retorno dele era um alerta para o povo. Sim, o Brasil pode. Passou a poder.

Os patrocinadores não ficavam atrás. Trouxeram esse grande reforço sabendo que seria uma bola dentro. Era um ícone, afinal. O alvo mais cobiçado, a curto prazo, certamente, eram as Olimpíadas. Que sonho ver o Brasil campeão. Seria inédito!

E foi assim, em meio a todo esse estardalhaço, que o mestre PhD Antonio Luiz dos Santos Serafim, professor de Matemática, brasileiro, formado em Oxford, foi anunciado naquele dia como o novo professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Bela contratação.

As Olimpíadas Mundiais de Matemática agora estavam no papo.


domingo, 17 de junho de 2012

Santo Remédio dos Diabos

Eu estava louco para me curar. Não suportava mais tudo que me acometia. Era uma dor intensa, e você não estava comigo mais para me ajudar. Aliás, você fazia parte da doença. Tinha certeza disso.

Fui ao clínico geral. Relutei pra ir, é verdade, mas fui. Não adiantou muito. Ele falou com toda propriedade de doutor que meu problema era “estresse por conta do trabalho”. Não quis acabar com a “certeza infalível” dele para lhe dizer que sou aposentado. Muito bem aposentado, a propósito. E, mesmo assim, você não me quis mais.

Já que no clínico geral de nada adiantou, busquei uma solução um pouco mais radical. Procurei um novo médico. Não um qualquer, mas um especialista na doença de que eu tinha certeza estar sofrendo. Fui atrás de um psiquiatra. Precisava de um remédio, isso sim. Algo que forçasse meu organismo a funcionar direito novamente.

Desde que você me deixou, Dorinha, minha vida nunca mais foi a mesma. Me lembro como se fosse ontem. O dia derradeiro, que nunca poderia ter existido. Mas existiu e permaneceu grudado na minha memória como nunca. Como nunca, precisava de um remédio. Estava lá, me preparando para dormir, quando você saiu da cama como se de um rio, pronta para ser levada a novos horizontes de oportunidades. Sua prontidão me afogou de imediato e agora me vejo nesse estado. Jamais me recuperei do baque. Como medicar isso?

A ida ao psiquiatra foi muito produtiva, no fim das contas. Ele me receitou um remédio dos bons. Disse que eu deveria sorver doses diárias e moderadas dele. Caso viesse a me exceder, ensinou, poderia até me ferir e me descontrolar até sair de mim. Deve ser porreta o danado!  Peguei a receita e saí radiante do consultório, esperançoso de que dias melhoras viriam.

Engano meu. O tal do remédio não tinha em lugar nenhum. Rodei a cidade, procurei em tudo o que é farmácia, até no camelô eu fui atrás. Na internet também não encontrei. O safado do psiquiatra me enganou, só pode. Vou denunciá-lo! Vou processá-lo! Isso não se faz! Estou precisando muito de uma ajuda, e ele era a boia de salvação. Só me fez sentir enganado. Que falta de respeito! Não vai ficar assim mesmo!

Opa, espera um pouco, Dorinha. Acho que encontrei o remédio. Já não era sem tempo. O rapaz que me vendeu disse que nem todo mundo tem mesmo, que, na verdade, é bem raro alguém tê-lo hoje em dia. Então era isso. Bem, não importa mais. Achei o que queria, vou ver se compro umas dez caixas. Foi tão difícil encontrar alguém que tivesse que preciso me garantir.

Acabo de tomar uma dose. Vou tomar moderadamente, mas preciso ter um mínimo para me manter bem e seguir a minha vida. Remédio bom esse tal de Orgulho, viu? É bem verdade que, em excesso, vira tarja preta. Sabe tudo o psiquiatra! Já estou me sentindo bem melhor.

Adeus, Dorinha. Fui. Vou nadar por aí. 


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Iguais no Fim


Tamara queria apenas mamar no colo da mãe, mas ela morrera ao dar a luz.

Érica, desde pequena, tinha dificuldades para comer, apesar do esforço de seus pais em alterar isso. Batiam tudo no liquidificador, mas pouco mudava.

Tamara foi abandonada pelo pai, morou na rua até ser abrigada por um orfanato, mas nunca teve uma casa para chamar de sua.

Érica sempre morou no mesmo apartamento luxuoso em frente à praia, mas estava cansada da rotina do lugar de sempre e das pessoas de sempre.

Tamara se empenhou nos estudos e até completou o Ensino Médio num colégio da rede pública, mas não conseguia pagar pelo sonho de cursar a faculdade de Direito.

Érica estudava Direito numa universidade pública e só tirava 10, mas queria ser atriz. Seus pais não deixavam. Diziam que não dava dinheiro, que não era trabalho de verdade.

Tamara era faxineira numa loja de roupas. Ganhava o suficiente para pagar as contas. Ia para o trabalho todo dia de ônibus. Até fez amizade com o motorista.

Érica ganhou um carro, mas não sabia dirigir. Ganhou um motorista, então. Ela odiou. Faltava-lhe privacidade.

Tamara namorava um rapaz aqui, outro ali, mas não pensava em se casar. Não confiava em relacionamentos. O que seu pai fez lhe causou traumas profundos. E chorava.

Érica planejava se casar de véu e grinalda um dia, mas ainda não tinha encontrado o amor da sua vida. Sonhava intensamente com esse momento, que nunca vinha. E chorava.

Tamara vivia a sua vida, mas queria viver outra. Não podia. Faltava alguma coisa. Faltava oportunidade. Sobravam sonhos. Sobravam problemas.

Érica vivia a sua vida, mas queria viver outra. Não podia. Faltava alguma coisa. Faltava independência. Sobravam sonhos. Sobravam problemas.

Tamara se cansou daquilo. Tirou a própria vida, após se jogar nos trilhos do trem.

Érica se cansou daquilo. Tirou a própria vida, após se atirar da sacada de seu apartamento.

Tamara e Érica nunca se encontraram e não tinham nada em comum, exceto tudo.

As duas não conseguiram viver, e morreram. Desistiram de tentar.

Ou não.

Morreram, para enfim tentar viver.

No fim, são todos iguais. Todos buscam um recomeço.

Todos buscam a paz.

  

  

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Primeiro Ano

Acordei hoje num tédio só. Não sei muito bem o que quero fazer nem se quero realmente fazer algo da vida. Prefiro ficar aqui na minha, pensando, divagando, vendo tudo passar. A preguiça me consome por completo. Falta disposição para agir. Falta tudo. Estou carente. Estou sozinha. Ninguém para conversar. Nem poderia, na verdade. Sou extremamente limitada para essas coisas.

De todo modo, estou com muita vontade de desabafar. Esse vazio, esse sentimento de nada, tem um motivo. Ou melhor, tem um nome: Tomás. Seu sorriso, sua simpatia e simplicidade me conquistaram logo de cara quando nos encontramos na praça. Posso dizer, do alto da minha larga experiência, que foi amor à primeira vista. Só não sei se foi recíproco. Na verdade, sei que não foi, mas não quero admitir. Ele não está nem aí pra mim. Tenho feeling pra essas coisas. Nessas horas gostaria de não ter.

Não me conformo. Meu pai diz o tempo todo que sou linda, inteligente e simpática. Devo ser mesmo. Chamo a atenção de todos. Na minha família sou a xodó. Todo mundo me elogia o tempo inteiro. Não só na família. Na rua também. Modéstia à parte, acho que sou um arraso. Só o Tomás não percebe. Que tristeza. Ele só quer saber daquela outra mulher, toda alta, que não o larga em momento algum. Sempre que os vejo, lá estão os dois passeando no carrinho idiota dele pra lá e pra cá. Que ódio!

Por que eu não posso ser feliz com o meu grande amor? Tenho certeza de que ele é a minha alma gêmea. Já falei que tenho feeling pra essas coisas? Não poderia ser muito diferente, convenhamos. Tenho um grande exemplo em casa. Meus pais são muito bem casados, muito apaixonados, eu acho. Vejo os dois sempre muito bem, sorriem pra mim o tempo todo, me fazem sentir a melhor pessoa do mundo. Sou uma felizarda por isso. Quer dizer, mais ou menos. Isso me mostra o quanto estou perdendo tempo enquanto não conquisto o Tomás de vez.  

A verdade é que eu preciso de uma dieta urgente. Estou uma bola! Todo mundo na família está comentando. Minha tia, entre caretas e outras bizarrices indescritíveis, outro dia deu gargalhadas de felicidade ao ver minha nova forma física. Falou um monte de gracinhas e até apertou minhas bochechas. Que louca! Parecia achar bonito. Acho que, no fundo, ela ficou alegre mesmo foi por ver que está em melhor forma do que eu, essa bola. Não aguento mais engordar. Tenho que cortar o leite, mas minha mãe não ajuda em nada. Fica o tempo todo querendo me dar comida. Nos últimos dias, então, foi ainda pior. Toda vez que eu choro (e tenho chorado muito por causa do Tomás), ela acha que é fome. Mãe é fogo. Mal sabe ela que estou apaixonada. Mal sabe ela que estou louca para me libertar. 

Tenho sempre muita vontade de chorar. Vontade de gritar para o mundo, não só o meu amor por ele, mas também tudo que vem me corroendo há pelo menos um ano, quando saí daquele breu solitário em que me encontrava. Não consigo. A voz não sai. Só grunhidos e sons estranhos. Que saco! Acho que nunca vou entender o que tenho de diferente dos outros à minha volta. São todos muito grandes, muito seguros de si, muito desenvolvidos. Por que não posso ser como eles? Qual o problema comigo? Será que, se eu for assim um dia, o Tomás irá me querer?

Preciso parar com isso. Não está me fazendo bem. Pensar no Tomás o tempo todo não me faz melhorar em nada, só sofrer. Tenho uma vida inteira pela frente e me considero madura o bastante para virar esse jogo. Quero dar uma volta, passear, mas me falta alguma coisa. Andar é um exercício muito complicado atualmente. Sempre foi, mas agora está pior. Meus movimentos, antes inexistentes, agora esboçam um início. Mas tento inúmeras vezes e torno a cair. Tenho certeza de que um dia vou conseguir. Conteúdo é o que me falta. Aposto que tudo mudará quando eu completar dois anos de vida. Serei bem mais madura. Uma moça. Tenho feeling pra essas coisas.

Agora estou realmente com fome. Quero leite. Vou chorar pra mamãe. Depois vou nanar. Espero sonhar com o Tomás para acordar chorando novamente.


terça-feira, 22 de maio de 2012

Julieta & Romeu

O metrô não é bem um lugar para se conhecer novas pessoas. Mas às vezes não tem jeito. Como frear o acaso? Como obstruir o que o destino tratou de juntar? Não dá. E foi assim que eles subitamente se conheceram, ao se sentar lado a lado num vagão qualquer:

- Bom dia, senhorita.

- Hãn?! Bom dia.

- Por que tanta surpresa e secura ao me responder, adorável criatura?

- Só respondi “bom dia”, sei lá. Estamos no metrô. O que queria mais?

- Um sorriso, talvez. Um desabrochar de sua face para esse belo dia que está começando. Ou, na melhor das hipóteses, para mim. Seria um privilégio, devo confessar.

- Nossa, você tem muito bom humor de manhã.

- Não é questão de humor. É questão de sobrevivência. Amo a vida. Não sobrevivo sem ela. Sem amá-la. Sem sorrir para ela. Devia experimentar.

- Tudo bem. Se você assim diz, então não vou discordar. Estou com sono.

- Discorde, senhorita. Sua beleza certamente vai além do rosto de perfeita simetria. Tenho convicção de que se trata de uma brilhante dama.

- Você está dando em cima de mim ou o quê?

- Imagine só! Isso não são modos para um cavalheiro como eu.

- Pensei. Tive essa impressão. Que absurdo ter imaginado algo do tipo.

- Ora, mas a senhorita é muito objetiva. Muito direta, mas também irônica. Gosto disso. Dois pontos são ligados por uma reta. A senhorita vai direto ao ponto.

- Viu só?! Está dando em cima de mim sim.

- Apenas constatei, minha cara. Entre o branco e o preto há milhares de tons.

- Às vezes não entendo nada do que você me fala. Parece estar viajando.

- Claro que estou. A vida é uma longa viagem. Não acha?

- Não sei. Nunca parei para pensar nisso.

- Pois então pense. Divague. Voe. As portas irão se abrir. Principalmente as portas do seu coração e da sua mente. Mas acho que a senhorita já viajou sim.

- Que conversa mais profunda para uma hora dessas. Por que você não lê um jornal ao invés de ficar aqui sonhando acordado?

- Por quê? Simples, minha querida nova amiga. Porque sonhar é enxergar um mundo muito mais doce, de grandes oportunidades. A pergunta é outra: por que não sonhar?

- Bem, vou pensar mais tarde no que está falando, mas acho que não concordo muito. Isso não é pra mim. Sou realista demais. Gosto de fatos, não sonhos.

- Claro que concorda. Só não vê da forma como eu enxergo. O fim é o mesmo. Vejamos: todo dia a senhorita acorda pensando num propósito. Sai de sua casa cheia de planos, mas sabe que o imponderável às vezes atua. E principalmente: sabe que o que te move é a vontade de sempre melhorar, evoluir.

- Nunca tinha parado para pensar dessa forma. Acho que tem razão. Sou assim mesmo.

- Não falei? Viajar é preciso. Os longos voos nos fazem pousar numa pista concreta de criatividade, de vida, de felicidade.

- Imagino que sim. Bem, chegou na minha estação. Tome meu telefone. Me ligue quando puder.

- Obrigado, senhorita. Adoraria prolongar nossa conversa numa outra ocasião. A propósito, qual o seu nome?

- Ah, é claro! Nem nos apresentamos. Meu nome é Prosa.

- Muito prazer. Me chamo Verso.


E assim, daquele dia em diante, tudo ficou muito claro. Os dois, apesar das diferenças, jamais andariam separados. Se tornaram grandes companheiros, enamorados, e é certo que viverão lado a lado até o fim de nossos dias.

Porque, no dia em que não mais existirem, acabará o sentido da vida de todos nós.


 
                                      
                                                 
                                                  Ilustração: http://desenhoscomgosto.blogspot.com.br

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Dois Cliques de Uma Mesma Moeda


 A vida é uma correria. Minha vida é uma correria. Um piscar de olhos, e tudo vira nada. Não é fácil.
Meu nome é Alexandre. Sou fotógrafo profissional especialista em seguir celebridades. Sim, sou exatamente isso que você está pensando. Sou um autêntico paparazzi. E dos bons.
Não pense que é tranquilo seguir famosos. Não é mesmo. Essa gente é muito temperamental, não nos deixa trabalhar e, em alguns casos, ainda nos ofende. Não queriam aparecer ué? Então pronto. É o que eu sempre digo: “ajoelhou, então vai ter que sorrir”. É o preço que se paga pela fama. Eu acho.
Mas tente colocar isso na cabeça de uma “estrela” pra você ver. É quase impossível! O que posso fazer se o povo gosta de ver essa gente na praia, na padaria ou no shopping fazendo compras? Pois então tenho que correr atrás, não é? É o meu ganha-pão. É o meu dever como profissional. Não tenho afeto para dar. Só cliques e flashes.
Ih, olha lá a Suzane Brandão tomando água de coco. O público vai adorar. “Sorria, Suzane!”. Flash.


Não aguento mais. Estou à beira de um ataque de nervos! Qual é a graça que as pessoas veem em me seguir? Pra quê isso? Esse pessoal está passando dos limites. Também tenho vida própria. Será que tenho mesmo vida própria?
Sou a Suzane Brandão. Claro que você já me conhece. Mas não sei se isso é bom. Às vezes gostaria de passar despercebida. Gostaria de um dia poder viver livremente. Estou cansada.
Como é que eles querem que eu fique distribuindo sorrisos o tempo todo? Às vezes não estou a fim, caramba! Sou uma atriz, interpreto papéis, mas também sou ser humano. Sou mesmo um ser humano? Tanta gente me desejando, me bajulando e se importando comigo que já nem sei mesmo o que sou. Sei lá.
É muito exagero dessa gente. O assédio, os gritos, tudo. Só a privacidade que não. O que esses perseguidores com habilidade ninja querem de mim se não tenho a minha liberdade?
Ah não. Lá vem outro me “flagrar”. Não posso nem tomar minha água de coco em paz. Acho que vou mandar o meu dedo do meio fazer uma participação especial nessa foto. Essa é clássica. Afeto?! Isso eu não tenho para dar. Flash.


                                     Foto retirada do site http://www.techguru.com.br

domingo, 6 de maio de 2012

A Lei do Mais Idiota


Cada vez mais tenho certeza de que vivemos num estado permanente de bang-bang. Tudo parece que se “resolve” na base da violência. Do tiro para assassinar. Da facada para ferir. Da porrada para bater na cara mesmo, sem frescuras, sem escrúpulos. Sem cérebro também. Lamentável e animalesco. Um espetáculo trágico e atual da nossa vida real. Um ciclo sem fim, porque gotas de sangue e narizes quebrados não modificam nada na prática.

A teoria darwinista da evolução aponta que o homem se desenvolveu de um status originalmente primata. Parece senso comum a ideia de que viemos do macaco, ou seja, de que éramos completos animais para nos tornarmos o que somos hoje. Mas o que somos hoje, na realidade? Não tenho tanta certeza assim sobre a nossa humanidade.

O tempo vai passando, os anos vão andando, passam-se décadas, séculos, milênios, e o ser humano teima em ver o uso da força, da briga bruta e física, do fogo queimado, como um objetivo para mostrar quem manda no pedaço. Um aviso. Uma execução. E a vida continua. Cavernas, guerras, trevas, bárbaros e mais guerras. Aquela ideia de que evoluímos do macaco não me parece muito exata. Parece que os instintos animais, para muitos de nós, são ainda mais ativos do que o privilegiado uso do cérebro que deveríamos preservar.

Não sou daqueles pacifistas nem candidato a Miss Brasil para querer a paz mundial. É utopia, claro. Muita gente gera muitos interesses, divergências, brigas, impulsos e, é claro, idiotas. Porém nunca me convenceu (e acho que nunca me convencerá) a utilização da força para resolver problemas. Como se a pancada fosse o fim em si mesmo. O alcance do objetivo. O importante é machucar, ferir, matar. Que se danem as consequências. Qual é, então, a nossa diferença para os animais? Difícil perceber. Acho até que estamos em desvantagem.

Um exemplo do uso da força a troco de nada pode ser percebido em shows, micaretas e boates de todo o país. Se não fosse algo tão comum e reiterado, seria chocante pararmos para analisar como homens, em um elevado percentual, fazem para se aproximar das mulheres nessa ocasião. Muitos deles primeiramente olham como se fosse uma presa. É o tal instinto animal. Depois tentam uma ação mais agressiva, às vezes puxando o cabelo, às vezes agarrando a cintura. Toda vez que vejo cenas assim me pergunto: como alguém pode achar isso certo? Como não perceber que é um tremendo desrespeito? Esse cara não tem mãe?

Outro exemplo de violência bruta, mas bem mais grave, de proporções trágicas, são as brigas envolvendo torcidas de futebol. Toda semana há notícias de brigas e até mortes, não só no Brasil, mas nos mais variados países, indo do Egito à Inglaterra. Tudo bem, o futebol envolve paixão, emoção, impulso. Eu sei disso, também sou grande fã do esporte, mas há um limite. Tem uma hora que devemos parar para pensar e usar a nossa consciência. É para isso que a temos. Será que essa galera que se mete em briga para pra pensar na imbecilidade (não vejo outra palavra) que estão fazendo? O que se passa na cabeça dessa gente? Deve ser algo do tipo  “vou bater pra...hmmm...ah, sei lá!!!! Porrada!!!!!”. Deve ser isso.

Não sou uma pessoa exatamente religiosa, mas acredito em Deus. Acredito numa força divina e superior. Mais do que uma certeza concreta (obviamente nunca estive em Sua presença), crer dessa forma é um conforto. Como não torcer para que o cara que executou outra pessoa à mão armada por mero interesse material não seja punido, lá na frente, num plano imaterial? É um consolo, pelo menos.

Não deixa de ser irônico misturar duas crenças tão distintas. Começamos o texto com os homens-primatas de Darwin para terminar com a fé de que Alguém lá em cima está olhando por nós e aparando as arestas. O fato é que acreditar nisso minimiza o vazio que sinto ao tentar entender o que se passa com essa gente. Porque, na verdade, não entendo mesmo. Jamais vou entender e estou escrevendo para compartilhar o meu desentendimento sobre essa aberração da consciência humana. Me ajudem. Haja força para evoluir. Haja fé para acreditar. Amém.